Vila Chã

Vila Chã
  • Morada:Vila Chã

Vila Chã

Vila Chã Vilã Chã é mais um dos lugarejos de minguados limiares do sertão provinciano. Envolta por um denso coberto de vegetação é partícula indispensável a quem se move por curiosidade pura de ver ou quem se desloque por febre de matar o tempo. Pertence, desde tempos imemoriais, à freguesia de Caria. O seu povoado inicia-se da outra banda da estrada que tem à ilharga a capela do Senhor dos Aflitos, construída por iniciativa de Joaquim de Sousa Morais Faião. Hoje, a estrada que retalha o povoado tem continuação até Carapito, por entre verdes matas, pinheirais. Soluços de verdura, torrentes de montanha, entremeadas de chapadas de urzes e fieitos. A gama de verdes é quase infinita. Árvores há de remoto plantio, do tempo das candeias de barro. Outras apenas despontam ou vivem a puberdade. Espécimes selváticas, as mais comuns, nascidas à sorte, Deus as semeou. Por elas serpenteiam as curvas do estradão, quais ganchos de cabelo. Nos altos de policromia que toldam a samarra dos montes, cachoam e zoam nos ouvidos os chinfrins estrídulos da pardalada, lançando as suas árias como um terceto de aldeia. Mas também deambulam nas chãs sem temor pelas ramagens elevadas como cruzes processionais. Sol e chuva aqui caem a prumo. Do alto chegam visos das sortes de mato enxadrezado, florido, sombreado. Diáfanos, ténues, chegam, coados nos filtros divinos da montanha, mil ruídos da gestação da serra e vale. E chegam porque os ares são lavados, deambulando tanto pelos píncaros fúlgidos das alturas como nas funduras. Um ponto de água que brota da terra imprime fertilidade a este povoado. Corre até Vila Cova e daí até à Ribeira do Mileu. Assim encontramos Rio e Serra irmanados na orquestração do lidar rústico e caseiro, na sua velha e tradicional litúrgica e rítmica ordenada. Motivo para perguntar se se sabe apreciar hoje todo o valor e autenticidade deste certame, acompanhando-o e acarinhando-o convenientemente. Sentem-se por toda a parte ecos da humanidade de passadas gerações. Presentem-se ainda os longes onde se trabalhava de sol a sol, com dias pequenos de seis a oito horas no Inverno, sempre com a interrupção meridiana do jantar às Trindades. O Verão, misto, de data fixa e móvel, iniciava-se agricolamente com a sacha e terminava com o S. Miguel. Alegre, álacre, rubente, cantarolando a moda há que tempos inventada, o povo amanhava a terra. Antanho, aqui se transmitia entre gerações a experiência de séculos recebida, numa impermeabilização congénita de raça. Em 1527 Vila Chã contava com apenas 8 moradores. Em 1758 eram 22 as habitações aí existentes, nas quais residiam 60 pessoas. No campo do património histórico destaca-se a Cruz de Pedra, que apresenta duas faces insculpidas com uma cruz. Aqui paravam antigamente os cortejos fúnebres para rezar. Paganismo, pensei. Cristianismo, emendei. Uma pequenina ermida de oração construída nos inícios do século XX e uma alminha granítica robustecem aqui o espectro da vivência do religioso.

Excertos do Livro "Avatares da Memória" de Jaime Gouveia

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