Mileu
- Morada:Mileu
Mileu
Entre a actual estrada que liga Prados a Caria encontramos Mileu. Está cimentada no vale, ao fundo de um enorme montículo de serra. Épica galeria esta, que se nos depara, numa breve visita. Irrevogável cenário em que se desnuda uma terra bucólica. Palco dramatúrgico onde pululam lastros culturais de uma memória perene. Repositório de reminiscências em orquestral sintonia com a amplidão ascética dos seus horizontes montesinhos infindos. A especificidade ôntica da paisagem ressalta em cada recanto. A descarnada aridez granítica do fraguedo, a fecundante irrigação da ribeira, deslizando translucidamente encostas abaixo, o matizado cromatismo do rosmaninho, urze, queiró, sargaço, tojo, carqueja, mimosa, giesteira e outros espécimes vegetais que abundam nas veredas dos matagais, toldam a paisagem de um semblante polícromo. São frondosos os pinhais e espessas as árvores do bosque. Tem dilatadas léguas de campo. O subsolo é rico em material lítico, existindo uma pedreira de onde ele se extraí para comercialização. Trata-se de uma terra acossada por uma quietude angelical apenas amolada pelo serenante rumor da magnanimidade cambaleante de pinheirais, pomares, olivais. Acrescem-lhe os arrepios das searas e da folhagem dos vinhedos que ecoam nos ares arrostando com os silentes horizontes. Mileu é nome pré-nacional que, segundo Pinho Leal, significa francês ou coisa estrangeira, estando ligado ainda à ideia de hospital ou albergaria. De facto, aqui, tal como em Vila Cova e Caria existia uma albergaria para pobres viandantes que nela encontravam cama, vinho e um cântaro de água. Que é terra antiga, de ocupação remota, percebe-se no aparecimento correntio de tegulae junto de terrenos agricultados na designada Ribeira do Mileu. Pertenceu ao extinto concelho de Caria e hoje é parte integrante da sua freguesia. Mantém os traços de povoado pequeno mas com visos longínquos. Em 1527 tinha 37 moradores. Em 1758 tinha 52 fogos e 138 habitantes. Por entre as ruas como a do Soutinho, por entre os prados de cultivo e cabeços rapados vislumbram-se traços de rusticidade beiroa. Possui ainda belos muros graníticos concebidos ao jeito antigo e um fontanário público, antigamente movimentado pelas lavadeiras. A Escola Primária está inactiva. Teve em tempos um lagar de produção de azeite, único em toda a freguesia de Caria. Do património que possui destaca-se a capela de N. Sra. das Angústias, de posse particular que tinha muitos bens vinculados e cuja administração andava em litígio em 1758 segundo a Memória Paroquial nesse ano redigida pelo reitor de Caria Manuel dos Santos Veloso. Em síntese, terra de um dilatado repasto cultural capaz de satisfazer o mais faminto aprendiz viageiro.
Excertos do Livro "Avatares da Memória" de Jaime Gouveia