Granja do Paiva
- Morada:Granja do Paiva
Granja do Paiva
Sobranceira à estrada que liga Caria a Vila Nova de Paiva vamos encontrar Granja do Paiva. Abrigo da agitação frenética e dos formigueiros humanos que fervilham noutros centros, Granja do Paiva é uma agradável estância que oferece uma calmia absorta e visos que se deparam com a amena frescura de um frondoso arvoredo, selvático ou de concepção humana; com a finura das águas, frigidíssimas no mais intenso calor do estio; com campos toldados de policromia, picotados pelas mãos calejadas dos íncolas e uma sorte de variegada de técnicas e instrumentos remotos; com serranias semeadas de penedos amontoados desordenadamente uns sobre os outros; com o despenho das veias, puras e cristalinas; e com muros, beirais e valados gizados ao remoto estilo de uma arte já em extinção. Não se estará a exagerar se se alvitrar que parece treslado das belezas do céu, este paraíso terrestre. Granja do Paiva é nome que adveio da sua condição remota, isto é, de aí existir uma granja. As granjas eram instituições prediais agrárias cistercienses. O vocábulo granjeio provém daí. Apesar da posse destas parcelas agrícolas ter transitado de mãos ao longo do tempo, nunca se perdeu a tradição de se lhes chamar granjas, havendo hoje, no território nacional, várias terras com esse nome. O Rio Paiva é a razão de ser desta granja, terra existente desde os tempos medievos. Espraiando-se aí, sempre lhe fertilizou os campos, possibilitando a sedentarização das comunidades. Terras de pão que produziam copiosas searas, hortas, vinhas, pomares e vessadas beneficiaram desta condição. Atesta-o a carregada catadura que ainda hoje se mantém como o semblante mais frequente destas terras de Caria. O povoado, de limiares exíguos, contava com apenas 13 moradores em 1527. Em 1758 tinha 20 casas e 63 habitantes. Aqui se venerou S. Barnabé desde tempos antigos. O património que se contempla nesta localidade, sem grandes delongas, é o forno comunitário, alminhas graníticas de belo ornato, fontes graciosas e a capela. Esta última, ajoujadinha a um adro de vetusto aspecto constituiu uma espécie de sala de visitas, pois é o primeiro conjunto arquitectónico que se depara a quem esta aldeia visita. Acrescem-lhe as necrópoles na Laja Velha e Abrengueira, compostas por dois túmulos cada, escavados na rocha, e alguns espécimes patrimoniais móveis de posse privada, nomeadamente dois pesos de lagar. Ainda não houve profanação da arquitectura rural, designadamente nos muros de feição ancestral e nalguns casinhotos e palhais que é possível encontrar pelas vielas estreitas mais características do lugar, a Rua do Outeiro, a Rua da Eira, o Beco do Saco e outras. Razões de sobra, todas elas, para estimular tanto os naturais do concelho quanto os indivíduos natos noutras latitudes para o inefável gozo que proporciona uma passagem por esta terra.
Excertos do Livro "Avatares da Memória" de Jaime Gouveia