Vila Cova

Vila Cova
  • Morada:Vila Cova

Vila Cova

Vila Cova, nome que deriva da situação geofísica do lugar é uma aldeia pertencente à freguesia de Caria. Está assente numa apertada bacia, banhada por uma pequena e serena corrente de água que para aí corre de Vila Chã, fertilizando tudo quanto é torrão até aos moinhos da Bóca, sumindo-se para o Mileu e daí fenecendo no Távora. A cova por onde se espreguiça o povoado desde o fundo até ao Eido e às Eiras está guardada por montes onde vegetam várias espécies florísticas, sobretudo pinheiros, urzes e mimosas. Os ares humildes, de frescura sã; os feixes luzidios que se estatelam nas molduras traçadas pelo picotado dos caminhos; as estrofes heróicas chilreadas em composições de ecos; o tergiversar da fauna no escuro; o clarear do firmamento em cheias aluviais de branco; as sombras chapadas nas fragas de curioso ornato; entre tantos outros deleitáveis espectros existentes em Vila Cova, provocam visos capazes de estiolar a mais acutilante antipatia figadal. O lugar terá sido derivação de vários povos, entre eles o do Richo. O sítio do Porto é um arqueossítio, tendo-se aí encontrado tijolos, moedas, pesos e sepulturas escavadas na rocha do período medievo. Teve esta terra, no século XIX, uma fábrica de fósforos ou palitos, como lhe chamavam. A parte desta, as fainas agrícolas sempre dominaram a economia. Abundava sobretudo o cereal, secado em lajas como a de Valquintinho e transformado nos moinhos. Aqui nasceram alguns indivíduos com propensão para o ministério da igreja, designadamente Francisco António de Andrade, abade colado dos Arcozelos e arcipreste de Moimenta da Beira; Francisco de Sousa Morais Faião, que juntamente com o ministério eclesiástico se destacou nos meandros da política local; e António Francisco de Andrade, que paroquiou Nagosa, Paradinha, Baldos, Arcozelos e Moimenta, tendo sido o autor da primeira monografia do concelho e de outros trabalhos de interesse. Outro filho desta terra a relevar é Joaquim de Sousa Morais Faião, a quem se deveu, entre outras coisas, a piedosa iniciativa de construção da capela do Senhor dos Aflitos, fonte e casa-hospedaria para os dias de festa. Este templo, sito no vértice da Cabeça d'Alva, à sombra de cujas paredes foi fundada em 1892 a Irmandade de Nosso Senhor dos Aflitos, bem como o povo que ali foi formigando, enriquecem ainda mais esta terra e toda a freguesia. Em tempos remotos por aqui passavam pobres e viandantes. Na albergaria podiam encontrar cama, lenha e um cântaro de água. Do seu espaço físico não há vestígios, não obstante aqui e acolá permaneça algum casario granítico mais rústico. Em 1527 tinha 37 moradores e em 1758 existiam aí 32 casas e 85 habitantes. Tem a aldeia dois templos católicos em uso: a capela de S. Tiago, padroeiro da terra, da qual reza a tradição oral que terá sido igreja matriz, o que parece comprovar-se com alguns motivos artísticos e históricos de relevo, designadamente a pia baptismal, algumas inscrições e a presumível existência remota de sepulturas escavadas na rocha em terrenos adjacentes; e a capela de Santo André construída em 1882, que veio substituir outra primitiva existente num monte com o mesmo nomeme que se desmoronou. S. Domingos também se venerava neste rincão, mas a capela, no perímetro da qual foram encontradas ossadas, foi desmantelada. Em 1758 ainda estava em uso, tal como asseverava o reitor de Caria Manuel dos Santos Veloso na Memória Paroquial que redigiu. O património de Vila Cova estende-se para lá dos conjuntos arquitecturais referidos. Nas imediações da localidade, num espaço de pousio, é possível contemplar um robusto buraco eximiamente talhado num bloco granítico, tido pela tradição oral como o "lagar dos mouros", sepultura escavada na rocha ou lagareta. Outras terão existido, no Porto, na margem Oeste da ribeira do Mileu, onde também foram encontradas moedas, pesos e tegulae. Ainda outra, semelhante, existe na Rocha DaJoana, em Senhor dos Aflitos. São apenas alguns entre tantos outros vestígios do passado que é possível por aqui contemplar, justificando uma visita.

Excertos do Livro "Avatares da Memória" de Jaime Gouveia

  • Partilhar