Caria

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Caria

Saindo de Moimenta com determinação monacal, rumo às terras de Caria, volvem-se cerca de quatro quilómetros até que se impõe retirar a tala asinina da destra para subir a rodovia que bordeja o espaço onde antigamente o íncola realizava a famosa feira da marrã em honra, ou honrada, pelo patrono do convento que tiros de calhandrina ajuízam de cercanejo: S. Francisco. Louçainho de ricos pormenores de antanho que o mugre fétido parasitamente procura elidir, possidente, o convento encontra-se, hoje, em sepultura de vala aberta. O esqueleto que dele resta está apossado da sôfrega natureza, robusto milhafre que o abocanha e suga. Sem suficiência, porém, para esconder ricos pormenores do passado que a incúria do tempo e dos homens não conseguiu letificamente fazer ruir. ☐ Este cenóbio é um dos ex-libris das Terras do Demo, onde o autor do Elucidário, frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, montado no seu machinho, na companhia de frei José Natário, pousou no seu lufa-lufa diário de farejar antiqualhalhas que pendiam de avelhentados e já cariosos pergaminhos, qual canino a rasgar a terra em busca das carcaças de vertebrados. Foi esta obra inigualável do frade, o alicerce da riqueza linguística aquiliniana. Continuando a marcha neste frondoso recanto beirão com laivos do Douro, seguindo a vereda sem desvio, segue um trilho que a fauna avícola, pondo termo à calma absorta, rasga em tons melódicos proceros de chamamento prestadio, parecendo entender o carácter prestameiro da cultura que ali o nosso espírito representa. De súbito, encontramos uma subida em pronunciadas curvas de vegetação variada. Arvoredos verdejantes e floridos com matagais, em doces emanações de fescura que as águas brotam e deslizam a seus pés, e leiras fecundas onde outrora cresciam mimos pujantes e hortas viçosas. Aqui, o sítio é de gosto vingando o plenismo de Leibniz porquanto o mini-universo de que aí somos testemunhas oculares está completamente ocupado pela matéria, não existindo vácuo. Estamos já, por conseguinte, nas antigas terras de Santa Maria de Caria, honra dos irmãos Mem Moniz e Egas Moniz, cabeça de um município medievo extenso e rico que na longínqua centúria de duzentos, se não antes, passou a partilhar com a Rua, o qual seria extinto apenas em 1855, sendo anexo a Sernancelhe e em 1896 a Moimenta da Beira. Não adianta pugnar pela descoberta de qual das duas irmanadas terras comporta uma maior densidade secular. As origens de ambas remontam a tempos remotos perdidos nas brumas dos tempos que as provas mais concisas dos inúmeros vestígios arqueológicos que por aí foram sendo descobertos, autorizam a filiar, pelo menos, ao período clássico. Por aqui, e em redor, o olhar mais atento retém uma visão de uma aura de candura de onde se vislumbram jeitos de civilizações primitivas, em inúmeras tegulae e outros artefactos que brotaram das profundezas da terra. Bonita e bem lavada de ares constantes, esta é uma terra de quietude patriarcal, de viver provinciano. Do alto, das cabeças graníticas, outrora alicerce de um robusto mas singelo castelo, fitam-se várias terras a fraldejar por entre espécies arbóreas, enchendo o panorama de deslumbrante infinito. Na prepotência da natureza ecoa uma miríade de miríades de ecos que nos conduzem a reminiscências que podemos reviver com um ambiente de regulada pressurização. Cada recanto de feição rural revela a ancianidade do local. Aí cresce vegetação com bravura sob guarda de muros por onde espreitam silvas, musgos e outros líquenes. Nós estamos ali “agora". Eles estão ali desde "ontem". Nós contemplamos o que vemos. Eles escondem silêncios remotos. Que se estatelam nos duros muros dos templos cristãos, nas portentosas sepulturas escavadas na rocha, na donairosa residência paroquial, no rústico casario, nos marcos da Universidade de Coimbra, nas fontes de belo ornato e até nos já frágeis fólios de centenários documentos como o foral que em 1512, o venturoso, el rei D. Manuel, atribuiu ao concelho de Caria. Merece visita, esta estância de incomparável formosura, semeada pelo Criador ao redor das sete partidas do mundo.

Excertos do Livro "Avatares da Memória" de Jaime Gouveia

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